Onde ficaram os sonhos? Aqueles que ela tinha quando adolescente se apaixonou pelo rapaz mais velho, médico, bem sucedido, que fazia com que ela fosse diferente das outras meninas. Como toda garota de 16 anos, ela era insegura de sua imagem pessoal no grupo. Apesar de excelente aluna, considerada por todos como a melhor da classe, isso não melhorava em nada o que ela sentia nas festas e reuniões sociais. Era sempre aquela sensação de que a roupa não estava boa, de que os meninos não iam prestar atenção nela, de que algo iria dar errado e o garoto que ela gostava ia escolher a melhor amiga dela prá ficar.
O médico fazia com que ela fosse melhor do que as outras. Ele fazia dela uma princesa, escolhida para cavalgar com ele no cavalo branco e viver feliz para sempre.
Não importava se para isso tivesse que fechar os olhos para o lado negro do príncipe, onde ondas de ira faziam com que ela tivesse medo de falar. Não importava a violência com que ele eventualmente a tratava, seguida dos pedidos de perdão e juras de que aquilo nunca mais se repetiria. A boca que ele machucava era a mesma que momentos depois beijava ardentemente.
E ela embarcou nos sonhos de menina. Os pesadelos não custaram a chegar, trazidos pelo príncipe cada vez mais sombrio. Mas as juras de amor que entremeavam os gritos faziam-na pensar que poderia ser que não fosse assim tão difícil, que ela deveria estar fazendo algo errado, para que ele, que era tão gentil com as pessoas, fosse com ela tão diferente. Era a bebida, pensava ela. Só podia ser. O dia em que ele largar a bebida, tudo volta a ser um sonho. Ou serão os amigos? Aqueles que vinham na sexta feira a noite levar o príncipe e que o devolviam na madrugada, quando ela fingia estar dormindo.
Nas literatura infantil, a história termina quando eles se casam e vivem felizes para sempre. Onde estava o seu final feliz?
Algo faltava. Filhos. Aí estava a solução. E o nascimento da primeira filha desapontou a menina. Na noite que que a criança nascera, o príncipe, tal qual um arauto, saiu pelos bares da vida a anunciar que a filha havia nascido, e ela ficou ali, com um bebê no colo, quase uma boneca, sem saber bem o que aconteceria dali para frente.
A maternidade havia aberto a ela uma nova possibilidade. Aquele ser dependia dela. E ela se sentiu encantada com o fato de que ela havia produzido mais que equações e trabalhos escolares perfeitos. E os filhos tornaram-se um objetivo, maiores do que seus próprios sonhos.
Por anos, ela dedicou-se a estudar e a criar os filhos. Estudava tudo o que lhe caia nas mãos. Sentia quase que uma fome pelo saber, como se em seu íntimo algo lhe dissesse que um dia iria precisar daquilo para criar os filhos. e deixou os sonhos de menina de lado. A vida já estava feita. Era estudar, ser mãe e calar-se às ofensas. Por vezes tentou recomeçar a história. Recomeços seguiram-se às decepções.
Um dia conheceu um rapaz. Não se apaixonou por ele, mas pela liberdade que ele trazia. Era tão livre e tinha a mesma idade dela. Ainda estava começando projetos e ela achava que a vida dela estava definida. Filhos, marido, era feliz? Não, mas não via alternativa. Para ela, todos os homens eram iguais. E prá que trocar? Ou arriscar uma mudança? Conhecê-lo mudou seu ponto de vista. Ela tinha uma chance, afinal, tinha muita gente da idade dela começando a vida.
E começou a ver a vida de outra maneira.
E começou a fazer uma mudança interior. É claro que a segurança não veio logo. O processo era lento, mas a cada dia, ela construía um passo. E aprendeu a desamar aquele homem. E começou a desamar tudo o que ele significava. E foi se tornando livre.
Compreendeu que os sonhos teriam que ser calcados nela mesma, e não em outras pessoas. Aprendeu que era responsabilidade dela construir-se.
Uma parte ela já tinha feito, mas faltava o amor próprio.
Um dia ela decidiu, não queria que os filhos fossem o espelho mental daquele homem. Queria poder mostrar a eles que existe uma outra forma de ser, sem calar-se por medo, sem apagar-se.
E colocou na bagagem seus filhos, seus cachorros, seus livros e saiu.
Bateu a porta de casa e foi. Construir a liberdade.
E nunca mais voltou.
Uma história de liberdade
Abril 28, 2004 por Chris Ferreira

legalzinho
esse é um dos meus favoritos
Beijo!!
Ha…é legal só que poderia ser resumido neh?
resumir alguma coisa é muitas vezes deixar do contar o necessário..