Ao som do gramofone, as horas passavam muito rápidas. Eles dançavam na pequena sala anexa à sala de estar, onde seus pais conversavam, degustando o licor depois do jantar e discutindo a política do continente. Isso não interessava a eles. Queriam uma oportunidade de estar juntos e dançar era uma excelente desculpa.
Paulo e Dora se conheceram quando ela, recém-chegada de Ponta Porã, estabeleceu-se em Campo Grande. Na bagagem dela, além do gramofone, as lembranças da fuga do Paraguai, depois do golpe de estado mal sucedido. Os tiros ainda ecoavam em sua mente quando ela desembarcou na estação e os carregadores gritavam: Mala! Mala! E ela e as irmãs não compreenderam porque aquele povo sorria e ao mesmo tempo as ofendia. Elas não conheciam a lingua que se falava nessa terra nova, onde iram recomeçar. Juntamente com o pai, político influente, haviam fugido do país natal, depois da acusação de conspiração contra o governo. Mas isso era passado. Depois de dois anos, novos horizontes haviam surgido e ela estava ali, dançando nos braços de Paulo.
A música envolvia os dois e era única maneira dele tocar seu corpo, já que o namoro era devidamente fiscalizado pela mãe, que não permitia maiores aproximações. Em raras oportunidades, podiam passear pelo jardim, para colecionar beijos roubados e abraços ousadios.
Mas, apesar dos beijos serem a confirmação da intimidade, dançar era quase que tudo. Ele era um grande dançarino e, nos braços dele, ela se sentia no céu. Música após música, eles ficavam rodando, e rodando e rodando até que os pais decidissem ir embora. Nos bailes, o salão se abria para que eles rodopiassem pelo salão, despertando a atenção dos outros casais, pela maneira como pareciam um só corpo levado pela melodia.
O encanto durou três maravilhosos anos. Um dia, ele disse que teria que ir estudar em outra cidade, mas que ainda não tinha condições de casar e levá-la. Que ela esperasse por ele, ele viria buscá-la e então se casariam. Ela aceitou e disse em prantos que não dançaria com mais ninguém enquanto ele não voltasse.
Nos primeiros meses, as cartas eram quase que diárias, uma saudade imensa de estar perto, de rodar pelos salões. Contava que dançava sozinha, ao som das músicas que ouviam, pensando nele e nos momentos que passaram. As cartas foram espaçando, semanas, uma ao mês, até que em um janeiro não houve carta, seguida de um fevereiro também silencioso. Ela havia escrito as três últimas, dizendo que tinha saudades e que os bailes que frequentava não tinham o mesmo brilho, que quase não dançava mais em casa, esperando por seu par querido. Sem resposta.
E foi murchando, e murchando, e não ouviu mais o gramofone, e parou de ir aos bailes. Depois que soube que ele havia se casado no Rio Grande, tomou uma decisão. Nunca mais dançou.
Dança
Maio 27, 2005 por Chris Ferreira

eu adoro esse também!